Quem sou eu ? Ferreira Gullar

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Quem sou eu?

Quem sou eu dentro da minha boca?
Quem sou eu nos meus 
dentes
detrás dos meus dentes
na língua que se move
presa no fundo da 
garganta? que nome tenho
na escuridão do esôfago?
no estômago
na 
química dos intestinos?

Quem em mim secreta
saliva? 
excreta
fezes?
quem embranquece em meus cabelos
e vira pus nas 
gengivas?
Quem sou eu
ao lado da Biblioteca Nacional
tão frágil, meu 
deus, na noite
sob as estrelas?
e no entanto impávido!
(a mexer no 
armário de roupas
num apartamento da rua Tenente Possolo
em 1952
vivo a 
história do homem).

J’irai sous la 
aterre
et toi, tu marcheras dans le soleil.

Tudo o que sobrará 
de mim
é papel impresso.

Com um pouco de manhã
engastado nas 
sílabas, é certo, mas
que é isso
em comparação com meu corpo real? 
meu
corpo
onde a alegria é possível
se mãos lhe tocam os pêlos
se 
uma boca o beija
o saliva
o chupa com dois olhos brilhantes?

E sou 
então 
praia vento floresta
resposta sem pergunta
o eixo do corpo
na 
saliva dourada
giro
e giramos
com o verão que se estende por todo o 
hemisfério sul

Como dizer então: pouco
me importa a morte?
E 
sobretudo se existem as histórias em quadrinhos
e os programas de 
televisão
que continuarão a passar noite após noite
no recesso dos 
lares
numa terça-feira que antecede à quarta
numa quinta-feira que 
antecede à sexta
ou num sábado
ou num domingo.
Como dizer
pouco me 
importa?
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